Revista Galwan 2022
S er simples tem a ver com prezar pela espontaneidade e deixar que o corpo obedeça aos comandos que vêm do coração, afinal, quem melhor do que ele para saber quem somos e o que realmente queremos. É descomplicar. Saber tranquilizar a alma quando todos os pensamentos se mo- vimentam de forma tão efervescente que des- compassam o funcionamento de tudo que o compõe e o rodeia. É conexão que traz leveza. Se há um conselho a ser compartilhado e absorvido para a vida, ele pode ser definido por uma palavra: simplifique. A rotina, os pro- blemas, os caminhos que te levam até o seu objetivo. Aliás, é justamente quando optamos pelo simples que expandimos o olhar para as soluções. Viver é passar pelas dubiedades, com a certeza de que uma infinidade de ensinamen- tos está prestes a surgir, bastando dar voz a si mesmo e aos seus desejos. Estar livre para optar pelo sim ou pelo não e confiar que, não importa a escolha, se a resposta vem de den- tro, a vida tende a prosperar. Já pensou em como abraçar as oportuni- dades que um momento de ócio pode nos pro- porcionar? Se preciso, medite, ore ou apenas sente-se em silêncio e procure ‘domesticar’ os barulhos que lhe causam conflitos. Observe, mas tente não encontrar justificativa para tudo que acontece. Há coisas que apenas estão. Portanto, preze pelo momento presente, mesmo que lhe traga dor. Assim inicia-se um belo e inspirador processo de autoconhecimento e maturidade. O simples ficou ainda mais evidente quando pessoas se viram impotentes diante de um vírus desconhecido. A pandemia não criou novos se- res humanos, mas abriu precedentes para que cada um expandisse sua consciência e repen- sasse seu lugar no mundo. Rotina, propósito. O verdadeiro sucesso e o real valor do fracasso. Não à toa, o hábito de cultivar plantas e pássaros atingiu o seu ápice. Pontos verdes em meio ao concreto ou o refúgio no campo. Era o momento de se entregar à solitude e pensar. Quando tudo em que as pessoas se apoiavam, especialmente o consumo, foi retirado delas, per- ceberam-se esvaziadas de si. Quando a escas- sez de tempo deu lugar ao excesso dele, gran- de parte dos indivíduos não soube o que fazer. A agenda toda preenchida de compromissos e atividades é, muitas vezes, o reflexo de alguém que não quer viver um luto ou mergulhar pro- fundamente nas sombras e também nas luzes, parte do que somos. Neste caso, o medo de se encarar de frente não paralisa, pelo contrário, incita a acelerar. SIMPLICIDADE SIMPLICIDADE No momento em que vivemos um turbilhão de informações e redes sociais mostrando for- mas diferentes de viver, é preciso ter consciên- cia de que as respostas se encontram dentro de nós. Lições que só quem tem a humildade de ouvir a si mesmo pode aprender. QUANDO TUDO SE ENCAIXA Hoje psicóloga que segue a linha humanista e atende de adolescentes a idosos, Alice Lima se viu em meio ao caos emocional quando se- guia uma vida que, segundo ela, não era a que a realizava. Trabalhando na área da engenharia e com um relacionamento de 8 anos, decidiu simpli- ficar e abrir mão do que, para muitos, era a vida ideal. “Foi então que me mudei do Rio de Janeiro para o Espírito Santo. Mudei o rumo da trajetória. Me permiti dar uma pausa de 1 ano nos estudos e, em uma conversa cotidia- na com uma colega de trabalho, tive o insight da psicologia. Pesquisei sobre o curso e defini que aquela seria minha nova vida. Foi aos 27 anos, o que para muitos é tardio. Para mim, foi no tempo exato, foi quando decidi absorver de verdade os benefícios do autoconhecimento e mudar o que tanto me incomodava”, lembra. E, pelo conhecimento herdado de sua avó, passou a aceitar que “tudo vai se encaixando em seu devido tempo”. Ao ser questionada sobre sua definição atual após tantas reviravoltas, Alice ressalta: “Realiza- da pessoal e profissionalmente”. Ao transformar sua vida, passou a rever também o seu con- ceito de felicidade e do que te faz bem. “Moro próximo da praia, porque, hoje, é algo que não vivo sem. No meu tempo livre, me permito vi- ver o ócio e não fazer nada. Tenho momentos comigo mesma, respiro, reflito e também faço terapia, porque até os psicólogos precisam dis- so na rotina, além de ser adepta da medicina oriental através da acupuntura”, revela. Se tem algo que a psicóloga aprendeu em tempos, não só de atuação profissional, como também de sua busca interior, foi a relacio- nar o simples com a forma de tratamento que nos damos. “Há pessoas que não se permitem lidar com o processo de autoconhecimento. Gosto de pensar em emoções e sentimentos como água: quanto mais guardamos, mais eles se acumulam. É como se ficassem represados, podendo chegar ao ponto de transbordar, e o resultado pode ser uma catástrofe, como já assistimos aqui no Brasil, duas catástrofes ambientais. Só que no sentido emocional, vem como uma crise de ansiedade, por exemplo. É importante estarmos seguros de que, se tivermos vontade de chorar, que cho- remos. Devemos nos dar a permissão para sentir tudo o que vier”, reflete. Alice destaca que a dificuldade que muitas pessoas têm em dizer não para o outro, do estar lá disponível para ele a todo momento, do ouvir mais ao outro e não a si mesmo, priorizando-o, não dando voz às suas próprias vonta- des e necessidades, tem a ver com se negligenciar, se deixando para depois. Só que isso tem um preço, que pode ser o adoecimento, uma dificuldade - mes- mo que momentânea - de lidar consigo mesmo, com seus sentimentos, emo- ções, desejos. Enfim, a vida simples consiste na maior escuta de si mesmo, do maior contato com a natureza e a ver- dadeira conexão com o sagrado, a essência do ‘eu’. Thaís Tomazelli Se abrir para a simplicidade significa colher as bonanças que o processo de autoconhecimento e maturidade proporcionam A LIBERDADE de viver o simples R e v i s t a G a l w a n • 89 88 • R e v i s t a G a l w a n
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