Revista Galwan - 2023

Por MARIA SANZ MARTINS, é advogada, escritora e designer. Autora do livro “A Vida Secreta da Gente”. colchão "O tempo não é uma estrada. Ele é um quarto”, John Fowles Existe um lugar com não mais de 2 metros quadrados que ao longo do tempo foi sendo extravagantemente melhorado. Se nos primórdios o chão forrado de folhas e, com alguma sorte, um pouco de feno, era o descanso do guerreiro, hoje a cama – e seus deliciosos e infinitos apetrechos – é um parti - cularíssimo planeta. TEMPO DE ARTIGO Ainda é nela que se descansa de olhos fe - chados, claro. Mas o que há de melhor na mi - nha lista de vida é o que se passa por sobre este cenário. Porque que a cama é o palco onde se apresenta sua majestade, a intimidade – ela que é gloriosa por excesso de simplicidade. Horas de colchão com quem se ama são uma espécie de quilometragem dourada, que nos leva por uma longa estrada, mata adentro do peito, fundo afora na alma. (É, pensando bem, deve haver uma explicação científica para o porquê de nos conhecermos melhor deitados...) Desculpe se decepciono, mas não estou fa - lando daquilo que você pode estar pensando. – Tsc, também isso é importantíssimo, claro. Mas aqui falo do tempo que passamos conversando. Conversando, brincando, beijando, abraçando, sendo gaiatos, vendo tv, lendo jornal, comen - do fruta, pipoca, chocolate, rindo, chorando, gargalhando, confessando, de pernas para o alto, na horizontal, sentados, abraçados. Pais e filhos, amores, amigos, irmãos. Ficar juntos na cama faz uma bem danado. Nos aproxima. Fui criada na enorme cama de meus pais, brincando, assistindo filmes inesquecíveis, con - versando pelas manhãs, e nas tardes de do - mingos e sábados. Juntos, muitas vezes fazen - do nada; calados mas colados. Percorrendo a estrada, adentrando a mata, curtinho a paisa - gem. Dizendo te amo sem nenhuma palavra. Também com minhas amigas, na adoles - cência, quantas noites não passamos em claro salvando a humanidade? E depois da escola; antes da festa; depois do almoço de sábado, segredos, lamúrias, juras, gargalhadas. “A cama da nossa casa é o melhor lugar que existe!” – não sei quem disse isso, mas tenho certeza que é uma máxima, não pos - so estar enganada. Porque é nesse planeta acolchoado que nossa vida tem mais sentido. (Você não acha?) Não há outro lugar em que seja mais gostoso olhar nos olhos do filho, dar as mãos ao mari - do, ouvir música abraçados, brincar de velhos namorados, conversar fiado, caçar cravos, fa - zer carinho, fazer pirraça, fazer cosquinha, fa - zer dengo, tomar sorvete, comer melancia, ficar descabelado, tirar o relógio do braço, dormir. E acordar juntos? – Mesmo que seja recla - mando do decididíssimo despertador alheio – nada traz a mesma sensação de aconchego... É cabana para o coração. Razão pela qual isso de passar o tempo com quem se ama sobre molas ensacadas, cobertas de espuma, seja assim tão mágico – tipo que nem bombom de chocolate branco com castanhas e recheio de doce de leite queimado – imbatível. Aliás, um perigo! Perigo, ora! Quantas paixões avassalado - ras não nasceram assim? Você sabe, deve estar na mesma catego - ria de uma visita ao Éden, montado num ca - valo branco com asas rosadas, isso de ficar gastando preguiça na cama, com cara de bobo, sem sentir direito as pernas e com ca - belos eriçados. Falando nisso, lembrei que outro dia encontrei um casal de namorados que há pouco decidiram morar jun - tos. Rapaz, dava gosto de ver o novo grau da intimidade... Bo - nito mesmo sentir o cheiro das horas de colchão que aquela convivência exalava. Pudera. Sem filhos pequenos, nem tv no quarto, num apartamento só pra eles – e uma geladeira programada (morango, mexerica, uva verde sem caroço, sorvete de iogurte, leite conden - sado, cerveja importada), os dois curtem como nunca as benesses de um par de travesseiros, um amor, um edredom e um ar condicionado. Êta fase boa da vida essa em que vivemos esparramados, nos tornando cada vez mais cúmplices e íntimos – de cada curva do corpo, de cada tom da voz, e de cada jeito do olho. Jovens aproveitai! É pena, mas não lhes minto: a vida vai deixando estes momentos cada vez mais raros. Compromissos, crianças, trabalho, telefo - ne, brinquedos... A cama tende a ficar cada vez mais tumultuada, e a intimidade, coitada, perdida da Silva, acaba sentada numa pedra na beira da estrada. Ela espera. Espera sem nunca perder a esperança de um dia ser resgatada. Verdade. Pode procurar. Hoje, quando a visita for embora, deixe a sala de estar, tire os sapatos da alma, segure seu bem pelas mãos e leve o tempo para passear no melhor dos melhores metros quadrados já inventados. Ou, nosso templo acolchoado particular. ARTIGO R e v i s t a G a l w a n • 107 106 • R e v i s t a G a l w a n

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